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DEFINIÇÃO DO VOTO PARA DEMOCRACIA

  • Foto do escritor: Daniel Fernandes
    Daniel Fernandes
  • 18 de set. de 2024
  • 4 min de leitura

Em um diálogo sobre democracia e seus vieses conservadores, progressistas, reacionários e revolucionários, tratei com alguma paixão o que motiva o meu voto.

Defendi que se trata da personificação da liberdade, da vontade livre e consciente com que um eleitor se posiciona numa democracia. Enquanto votante, definimos arcabouço político e priorizamos as necessários básicas essenciais à nossa nação democrática. Um bom amigo, ouvinte e opositor à ideia, defendeu que os ideias políticos não está constrito à definição do voto na urna, pelo contrário, argumentou que o voto pode estratégico, pois não define valores, vieses ou arcabouços políticos.

Acusamos um ao outro de sermos polarizados, sem muito nexo, confesso.

Como toda discussão acalorada sobre política, nossa contradição iniciou-se quando defini um determinado candidato como sendo progressista, qualificando-o por seu estigma político. Entendi que influenciei a percepção do meu ouvinte, fazendo-o crer que, para mim, outros candidatos também possuem estigmas políticos definidores de posição básica.

Ultrapassada nossa contradição de ideias, ele narrou que votar em um candidato pode ser “estratégico” – isso não define vieses político, argumentou que um voto pode ser adotado para reduzir as chances a um determinado candidato, desafeto político, subir na tribuna. Argumentou também que não está sendo levado por polos políticos, mas sim, está agindo de forma pessoal e principiológica visando não deixar um “péssimo” candidato, a seu próprio critério, assumir o poder.

Vou me constranger e expor opiniões utilizando dois elementos, mas antes julgo determinante entendemos a multiplicidade da palavra “verdade”. Todo pensamento detém consigo uma conclusão logica que tomamos como verdade pessoal. Esta verdade pessoal fundamenta nossos ideias e justifica nossas escolhas, definindo-nos. Quero que você consagre mentalmente, antes de adentrar as premissas sobre o tema, se seus pensamentos e posturas são definidas por impetuosidade ou racionalidade, você consegue encontrar base consistente para formular opiniões? Minhas bases são estas.

Vamos ao primeiro argumento. Polarização política, nos últimos 20 anos nas eleições presidencialistas votamos no candidato “menos ruim” por disputa acirrada, pelo menos é assim que vemos conforme notificais midiáticas e promoções na internet. Eleitores são conduzidos a votar em “a” ou “b” por manchetes e joguetes, e nos mesmo critérios justificam opiniões. Muitas das grandes literaturas distópicas como as do George Orwell, Ray Bradbury ou Margaret Atwood, abordam a forma como a mídia e a informação é manipulada. Pense em um teatro de marionetes, no qual os candidatos são os bonecos e o palco é amplo e visível a todos. Neste contexto, os atos de cada candidato — as puxadas e repuxadas das cordas, representando as estratégias de marketing na mídia, como autopromoção — o “palco político” é gradualmente encurtado pelas cortinas vermelhas àqueles que possuem maiores verbas para publicidade, forçando o público a focar em um ato do espetáculo, nossa visão torna-se limitada.

No segundo argumento, recorro à etimológica da palavra “voto”, trata-se da personificação da escolha dos cidadãos na tomada de decisões políticas. A palavra deriva do latim e remete às palavras “promessa”, “desejo” e “compromisso”, e, na época da língua mãe, eram direcionados aos próprios deuses. Hoje, usamos a palavra como compromisso de “opinião em contextos cívicos”, no que se refere à políticos e partidos com ideologias.

Nessa perspectiva, os antigos escolhiam o que pedir aos deuses. Quer proteção? Faça um sacrifico (de seu voto) à Júpiter; quer sucesso? Minerva é a deusa correta para entregar seus votos de dedicação; quer amor? Faça um voto silencioso em forma de sacrifico à vênus, e a cada Deus conceda seu voto de devoção, após isto, veja a mágica acontecer. Ainda que a concepção da palavra “voto” no seu contexto moderno tenha mudado para “opinião em contextos cívicos”, não dos deuses, mas dos políticos, tenho esperança de que sua etimologia siga demonstrando o compromisso ou desejo de um eleitor numa democracia.

Nosso desejo caracteriza-se então como entrega direita de poder. Mas no contexto atual, com advento das regras do consumo e controle midiático, o voto torna-se mais que isso, torna-se razão do enaltecimento de uma vaidade no qual, nosso ego é o percursor, não a democracia. Agimos assim a fim de dizer “estou do lado certo” ou “possuo a verdade”. O voto em sua origem é secreto e o critério para assim sê-lo enaltece suas características filosóficas e morais imprescindíveis para a constituição de democracia – o sigilo é a defesa contra a polarização, sem no qual, tornamo-nos mais comprometidos com a busca da vitória a favor da democracia.

Mas o conceito democrático do voto mudou, não éramos incentivados a votar pela negativa, escolher com um “Deus” cujas preces não fazem sentido para nossa verdade. Apontamos o problema da corrupção como sendo alheio a nós mesmos, mas, à crivo da bases filosóficas da democracia, o “voto estratégico” é a própria corrupção, incoerente e sem profundida política.

Afinal, a sociedade democrática consumista e egocêntrica vingou. Não são os deuses políticos eleitos que promovem o desfalecimento social, nós mesmo nos conduzimos à este caminho, numa ditadura autoimposta, perfeita. Deificamos nossas opiniões considerando-as o pico da verdade universal, resta apenas nos impormos contra outros eleitores, defendemos o voto estratégico para, ao invés de construir, desqualificar ideologias e verdade alheias – criamos “verdades de nascença”, sem humildade epistemológica e ternura fraterna.



 
 
 

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